Quando
eu era aluno, o maior “fantasma” que poderia existir era o risco da repetência.
Nada era mais assustador e temido. A educação na época, tanto nas escolas,
quanto em casa, era bem mais rígida quando comparada aos padrões atuais e,
repetir, poderia significar um completo desastre na vida do estudante. O aluno
então se esforçava para passar de ano, evitando desta maneira, broncas e
castigos dos pais.
Nas últimas décadas, o tal “fantasma”
da repetência foi combatido no Brasil por pedagogos e administradores da
educação pública, de forma que ela praticamente não existe mais, principalmente
para os alunos do ensino fundamental. Hoje é adotado o sistema de progressão
continuada, da qual, como professor, opino que ela foi o golpe final que
faltava para a completa queda da qualidade do ensino. Baseado em um sistema
utilizado principalmente por países de primeiro mundo, a progressão continuada
nivelou por baixo os alunos do ensino público no Brasil. Além deste fato, a
progressão cumpre apenas um papel de fornecer números surreais ao governo,
muitas vezes utilizados para fazer falsa propaganda da qualidade do ensino
brasileiro. Em países como Japão, Estados Unidos e a maior parte das nações europeias,
o aluno de fato não repete de ano, mas em alguns deles precisa prestar uma
avaliação para ser aceito no ensino médio. Além do histórico de notas ser a
principal referência da qual as universidades utilizam para escolher os alunos.
No Brasil a realidade é completamente diferente. O postulante a um curso
universitário de qualidade precisa passar pela seleção do vestibular. Para
obter sucesso em tal “peneira”, ele precisar ter assimilado os conteúdos de
forma plena.
É comum nas escolas públicas do
país, alunos que estão até para se formar no ensino fundamental, não saberem
ler e escrever corretamente, quanto mais a fazer contas de matemática. Desta
forma, o preparo para a intensificação dos estudos no ensino médio, do qual
será focado no preparo para o vestibular, será extremamente difícil para tais
alunos. Assim sendo, eles dificilmente irão conseguir acompanhar o ritmo dos
alunos apenas regulares, quanto mais o ritmo dos melhores preparados para
enfrentar o vestibular.
A repetência não significa o fim da
linha para o estudante, se configura na verdade em uma nova chance para ele, do
qual ainda está em formação, tanto física quanto de caráter, poder reescrever a
própria história escolar. Recebendo desta forma, a chance de se preparar
novamente enquanto dá tempo. Claro que deve se fazer o possível para evitar a
repetência. O aluno deve se esforçar buscando recuperar as notas ruins, para
que a média final não seja baixa e, que possa passar para o próximo ano tendo
assimilado uma quantidade considerável do conteúdo ensinado. Em educação,
apesar de esta ser ministrada de forma geral para todos, cada caso é único e,
merece uma análise cuidadosa da situação por professores, juntamente de pais e
alunos.
Temos a impressão de que cada vez mais é
preciso chegar mais cedo ao mercado de trabalho. Os pais são levados a pensar
que um ano “perdido” com uma repetência, pode abalar seriamente a entrada do
filho no mercado de trabalho, além do prejuízo financeiro, principalmente em se
tratando de alunos de escolas particulares. Para estes pais eu apenas passo uma
pequena informação – Que pena que nós adultos, após um ano do qual “batemos” a
cabeça nas mais diversas situações, não podemos voltar atrás e fazer tudo
novamente. Já sabendo onde erramos para melhorar e crescer pessoalmente e
profissionalmente. O aluno que invariavelmente vier a repetir de ano, teria
esta chance, da qual não existirá mais na idade adulta.
No Brasil, infelizmente, alguns pais
chegam até a processar a escola após o filho repetir de ano. Para tais pais
seria mais proveitoso o filho ir para o próximo ano sem ter assimilado o mínimo
necessário de conhecimentos, a tendência assim sendo é do aluno se acomodar e
lavar ano a ano desta forma. Só que tais pais parecem se esquecer de um pequeno
detalhe. Aos 17 anos o filho sairá da escola e, terá de enfrentar a dura
concorrência do vestibular, recheado de alunos extremamente preparados, assim
como um mercado de trabalho, mesmo para os não formados em cursos superiores,
extremamente competitivo e cada vez mais exigente com a formação dos
contratados.
Repetir, em determinados casos, faz
parte da educação. Ela não representa um fracasso completo, mas sim uma nova
chance de aprender. A educação brasileira se deteriorou muito após o fim da
repetência na rede pública. Falta hoje mão de obra especializada para as
empresas, que fazem parte deste Brasil que tanto cresce economicamente e, estão
importando a tal mão de obra mais qualificada. Será que uma educação mais
responsável, tanto do governo, quanto das famílias, não mudaria este quadro no
futuro? A resposta, invariavelmente, a maioria das pessoas conscientes sabem.
Daniel Gimenes